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Nascentes: ponto crucial para preservação das águas do Cerrado

Atualizado: 30 de mar. de 2023

Março chega ao fim e, com ele, o especial de conteúdos preparado pela A Vida no Cerrado, voltado especialmente para o debate dos recursos hídricos cerratenses



Por Maria Alice dos Santos, Núcleo de Comunicação e Engajamento


Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros: importante para a proteção das reservas hídricas do rio Tocantins. Área onde também são realizadas as práticas de educação ambiental, ecoturismo e recreação.



O Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é uma região de nascentes destacada pela ecologista Claudia Padovesi Fonseca como importante local para atenção e cuidado. Entre 1985 e 2022, o local perdeu 87% (equivalente a 200 hectares) de suas águas superficiais, indica o MapBiomas Água. Nesta reportagem, conversamos com a pesquisadora Claudia Padovesi Fonseca, bióloga e professora da Universidade de Brasília (UnB), especialista em Ecologia, com ênfase em Limnologia*. O diálogo foi permeado com dados atuais acerca da realidade das águas do Cerrado.


Apesar de ser o segundo maior bioma latino-americano, o Cerrado possui apenas 8,21% de sua área total legalmente protegida por unidades de conservação, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Pesquisadores na área reafirmam que discutir e pensar medidas de proteção para as águas envolve diretamente o cuidado com a terra também.


Importante zona de recarga hídrica, o Cerrado tem influência direta na produção de alimentos do país — e de sua economia, dada a exportação —, especialmente por abrigar as nascentes das grandes bacias hidrográficas brasileiras. Para além do lazer, as águas do bioma possibilitam qualidade básica de vida: o rio Grande, que nasce em Minas Gerais, deságua na bacia do Paraná, muito importante na produção de energia elétrica.


Com 179.921 milhões hectares de área com reservatórios, o bioma está atrás do Pampa (186.602 milhões de hectares) e da Caatinga (287.096 milhões de hectares), indica o relatório “A dinâmica da superfície da água no Brasil”, produzido pelo MapBiomas Água. Divulgada em fevereiro, a pesquisa contempla uma série histórica comparativa da superfície de água no país, entre o período de 1985 e 2022. No último ano, o Cerrado teve a maior superfície de água dos 38 anos de análise, consequência do nível de chuvas acima da média mais recente, registra o documento.



Gráfico indicativo dos níveis de superfície de água no bioma. Reprodução: MapBiomas Água.



Superfície de água, objeto estudado pela plataforma de mapeamento, se refere à área ocupada pela água superficial (líquido acumulado na superfície terrestre, presente em rios, riachos e lagos, por exemplo). Diferentemente das superficiais, as águas subterrâneas ocupam o espaço abaixo do nível da terra (os aquíferos).



Cerrado e MapBiomas Água


Os reservatórios do Tocantins-Araguaia fecharam 2022 cobrindo uma superfície 74% acima da média histórica — o maior superávit entre as regiões hidrográficas do Cerrado. Dos 5 reservatórios com maiores ganhos de superfície de água, os três primeiros estão na região da bacia do Tocantins-Araguaia: Usina Hidrelétrica de Serra da Mesa; Luís Eduardo Magalhães; e a Usina Estreito, respectivamente. Em sequência, a Usina Manso, da bacia do Paraguai e, em quinto lugar, a Usina Três Marias, da região hidrográfica do São Francisco.


Gráfico dos reservatórios no bioma. Medida Kha indica kilo/hectare. Reprodução: MapBiomas Água.



Por outro lado, em áreas protegidas, a superfície de água reduziu em 66% das regiões hidrográficas. Das dez localidades afetadas, sete estão inseridas na bacia Tocantins-Araguaia e cinco delas ocupam o topo do ranking. São elas:


  • O Parque Nacional do Araguaia, que apresentou redução de 3,6 Kha, equivalente a 36%;

  • O Parque Estadual do Cantão registrou uma queda de 24% (na marca, -3,1 Kha);

  • O Parque Estadual do Araguaia reduziu 22% (-2,3%);

  • A Estação Ecológica Serra Geral do Tocantins apontou -1,2 Kha (menos 81%);

  • O Refúgio da Vida Silvestre Corixão da Mata Azul indicou -0,9 Kha, ou seja, -36%.


Em sexto lugar, a Reserva Extrativista Marinha do Delta da Parnaíba (-0,5 Kha ou -7%). São da bacia Tocantins-Araguaia a sétima e a oitava posição: a Reserva Extrativista Lago do Cedro (-29%, ou -0,3 Kha); e, com o maior índice de redução dada a dimensão da área, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (-87%, ou -0,2 Kha).


Por ser uma localidade com significativas nascentes, a especialista em Limnologia Claudia Padovesi Fonseca destaca a Chapada dos Veadeiros como uma região importante para a preservação e cuidado com as águas. Desde 2011, a pesquisadora integra um grupo de trabalho da UnB voltado para o mapeamento de indicadores ambientais e de biodiversidade no local.



As 10 principais áreas de proteção do Cerrado afetadas. Reprodução do relatório do MapBiomas Água.



“Tendência predominante de redução de água no Brasil” é uma indicação da série publicada. Ao analisar o mapa, regiões hidrológicas com a presença do Cerrado (Paraguai, Tocantins-Araguaia, São Francisco, norte da Paraná e sul da Amazônica) possuem marcas vermelhas concentradas, especialmente onde estão os estados Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Bahia, Minas Gerais e São Paulo. Com redução de 1.371.069 de hectares (em 1985) para 557.530 (em 2022), Mato Grosso do Sul tem o registro de maior perda absoluta e relativa de superfície de água. Semelhantemente, Corumbá (MS) é o município com maior redução.



Análise por estados. Reprodução: MapBiomas Água.



Nesse contexto, o expressivo impacto na região hidrográfica do Paraguai é mensurado na redução média de 591,521 milhões de hectares, em relação à superfície de água. Os dados a identificam, assim, como a bacia mais impactada nos 38 anos avaliados.


Proteção da biota aquática, áreas focais para preservação das águas do Cerrado e perspectivas de futuro. Estes assuntos permearam a conversa com a pesquisadora, bióloga e ecologista Claudia Padovesi Fonseca. Doutora em Engenharia Ambiental, realizou dois estágios de pós-doutorado no exterior: em Limnologia, na Universidade de Granada; e em Ecologia Aplicada, na Universidade de Paris Pierre e Marie Curie.



Conversa sobre as águas do Cerrado no contexto mundial, com a professora Claudia Padovesi Fonseca, aconteceu remotamente.



Coordena o programa “Mapeamento Indicadores Ambientais de Biodiversidade Aquática da Chapada dos Veadeiros” e integra os projetos de pesquisa “AquaRiparia/Pro-Águas”, voltados para a qualidade de água em bacias hidrográficas no Cerrado; o “Água como matriz ecopedagógica - Cerrado, berço das águas e da vida”; e uma extensão também voltada para pesquisas na Chapada dos Veadeiros.


Abaixo, leia a conversa na íntegra.


Por que reforçar, no debate mundial, a relevância da preservação e conservação das águas brasileiras?


As águas do Brasil não são somente importantes para a América do Sul, como também para todo o planeta, especialmente ao considerar os aquíferos. A principal reserva é o aquífero Guarani, o segundo maior é o Alter do Chão e ambos configuram-se os maiores aquíferos do mundo. Em torno de 15% dos aquíferos do mundo estão no Brasil. É muito relevante em termos de recursos hídricos e também de controle de mudanças climáticas que estão acontecendo no nosso planeta. Considero as águas do Brasil como uma importância econômica, social, ecológica e de subsistência total, tanto para o nosso país quanto para o mundo inteiro.


Entrando na especificidade do Cerrado, ele é uma savana. Devido à influência das chuvas do Norte do país, é uma savana mais úmida, diferente das outras ao redor do mundo. Estão no bioma as principais nascentes das grandes bacias do país; por isso, é significativo termos conhecimento acerca da biota aquática e, também, para a preservação dessas águas. As nascentes estão inseridas dentro de uma área de proteção permanente, a proteção dessas áreas é integral.


Nesse sentido, o conhecimento e pesquisa em torno da biota e das espécies que ocorrem nessas áreas é muito relevante.


Fica bem clara a importância de mover políticas públicas de proteção para o Cerrado, justamente por ser um ponto de recarga tão importante. E é relevante considerar a proteção do Cerrado como também interligada à manutenção da vida e saúde dos outros biomas daqui e do mundo. Qual o lugar da proteção da biodiversidade aquática do Cerrado nesse contexto?


Na realidade, temos que proteger as áreas que são relevantes. Em relação à biota aquática, independentemente do grupo que você estuda, grande parte das espécies são indicadoras das qualidades de água e de proteção ambiental. Então, esses estudos realizados em áreas de proteção, como ocorreu em nosso grupo de trabalho, na Chapada dos Veadeiros e nas confluências dos biomas do Brasil — tanto na Maranhão, em que há a confluência do bioma amazônico, a Caatinga e o Cerrado; como também na região do Mato Grosso, em que analisamos as confluências dos biomas do Cerrado e Amazônia —; todos são possíveis indicadores dessa realidade. Como fizemos as coletas em áreas de proteção e onde há nascentes em locais mais elevados, tivemos, a partir dos registros dessas espécies, a indicação de como está aquele ambiente.


Como essas espécies são indicadoras de qualidade, seja de qualidade boa ou ruim, são ferramentas muito importantes para a descrição desses ecossistemas. Por conseguinte, possibilitamos subsídios para formas de proteção dessas áreas.


E quais os principais resultados que a senhora destaca nessas investigações?


Até o momento, tivemos resultados bem promissores relativos à permanência da proteção dessas áreas numa condição mais natural, em que os impactos ainda não estão atingindo as áreas de nascentes e cursos d'água de pequeno porte. Entretanto, percebemos o avanço do uso da bacia em que esses córregos estão inseridos, especialmente para o monocultivo da soja, por exemplo, no caso da Chapada dos Veadeiros.


Temos que trabalhar para que esses agricultores tenham sua produção, ao mesmo tempo em que as áreas de proteção integral sejam efetivamente protegidas.


A Chapada dos Veadeiros então seria um dos pontos de atenção no Cerrado brasileiro?


Eu acredito que sim, porque as áreas de nascentes são muito vulneráveis, então, qualquer alteração drástica nesses locais dificilmente pode ser realizada a recuperação. Elas não têm as propriedades que alguns pesquisadores identificam como resiliência ou resistência, porque são áreas com nascentes. Onde brota, sempre está em renovação. Seria uma comparação à fragilidade de um bebê ou uma criança, por exemplo. Dificilmente, nesses locais, encontram-se propriedades de ecossistemas mais maduros. Por isso, elas devem ser protegidas integralmente.


A partir desse contexto, então, como pensar políticas públicas e ações conjuntas da sociedade para promover maior proteção a esses pontos?


A gente sempre tem que atrelar ao menos três agentes da sociedade: governos, instituições de estudo científico e de análise — incorporando o ambiente e a participação da sociedade — e a própria sociedade geral. Fazendo ligações entre cada um, todos se responsabilizando, conseguimos trabalhar juntos.


Recentemente, eu li uma reportagem falando sobre o passado do Cerrado e como ele é um dos biomas mais antigos do mundo. O antropólogo Altair Sales Barbosa fala que o Cerrado é uma fotografia do passado. Professora, dentro da perspectiva de construção e divulgação de conhecimento e até maior atuação da sociedade, como pensar o Cerrado como futuro?


Eu acredito que as coisas trabalham de forma conjunta. O passado é importante pela história, pelo conhecimento anterior. O presente é necessário para a consciência de como trabalhar diante desse conhecimento e o futuro são os cenários que podemos imaginar, para sabermos criar perspectivas de trabalho também. Não considero que a gente tenha condições de separar essas linhas de tempo.


Com relação ao Cerrado, como já houve perdas de uso do bioma para diversas atividades, inclusive crescimento urbano, temos que considerar alguns cenários em que haja proteção integral onde nascem as águas, porque elas demoram para nascer. A recarga do aquífero é muito lenta, se considerar o tanto que a sociedade extrai dessa água.


Temos que trabalhar a favor do ritmo da Natureza, em função deste ritmo. E conseguimos: temos condições, conhecimento e tecnologia para tal. Não acho que chegaremos ao ponto de perder tanto da biodiversidade que não consigamos reverter determinados processos. A Natureza é sábia, existe uma sabedoria espontânea dela. Deixá-la fluir e, por consequência, ela seguirá seu rumo, seu ritmo natural.



Agradecemos muito a sua participação, professora! Foi muito enriquecedora a conversa. Gostaria de adicionar mais alguma coisa?


Agradeço muito o convite e a participação. Como você vê, sou sempre otimista em relação ao trabalho que fazemos, que é o trabalho de formiguinha e de gota em gota. Acredito na sapiência humana.




*Limnologia estuda todas as águas não influenciadas diretamente pelo mar (águas continentais ou interiores). Analisa a correlação entre os organismos das comunidades bióticas e o ambiente.



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